Sofrer é uma parte de viver. A ansiedade para com o que se pode vir a sofrer é uma escolha da mente.
Pois o sofrimento ocorre num momento presente, enquanto a ansiedade é a antevisão de um sofrimento que ainda não está a ocorrer, ou poderá nunca ocorrer. Paradoxalmente, a ansiedade causa outro tipo de sofrimento, que nada tem que ver com o sofrimento que se antecipa, criando a falsa sensação de que estamos num sentimento de sofrimento permanente.
A pandemia é um evento de circunstância provocada por eventos tão inesperados como um terramoto ou a erupção de um vulcão. O primeiro truque para sobreviver a uma pandemia é aceitar que ela ocorre e faz parte de um presente que se manifesta, mas que tal como o terramoto, tem o seu tempo finito. Com base nos conhecimentos que temos, podemos salvaguardar as acções que são pertinentes para o momento, mas em nenhum momento devemos deixar-nos arrebatar pelas possibilidades incalculáveis do futuro, caso contrário abrimos uma porta a um sofrimento distinto que tolda o nosso juízo.
Tudo nesta vida tem um tempo, e a única janela de acção que temos é a janela do presente. Tal como o momento em que eu escolho estas palavras, neste momento para o leitor corresponde à leitura destas mesmas palavras. É desse lado que está a escolha, continuar a ler ou parar de ler. Seja qual for a escolha há apenas uma constante, a consciência do momento presente.
Tudo o resto é irrelevante.
Pois se eu ontem podia ter morrido, tudo o que antecipei foi em vão.
Logo se eu temia a pandemia, mas acabei por morrer, digamos, a sufocar com um pedaço de comida, todas as minhas preocupações tiraram-me tempo para o que estava a desenrolar-se na minha vida, até ao momento em que poderia ter vindo a sucumbir.
A receita para a pandemia é simples, acatar as recomendações dos especialistas como prevenção, mas aceitar o presente pelo que é - um estado de graça em que podemos tocar na nossa alma - que se manifesta apenas no plano do Agora. Não será do passado, não será do futuro. Está aqui contido neste preciso momento. Como a agulha de um disco a descodificar as irregularidades do vinil que são analogicamente interpretadas como sons, música, voz. Mas a cada instante. A ilusão de progressão de instantes, dá-nos uma sensação de desenrolar. Assim como cada letra que surge nesta tela me dá a noção de palavras, frases, parágrafos, publicações. Todas resultam de cada grão que compõe um volume maior. A nossa vida é uma compilação de momentos que se desenrolam. A ilusão do que está para a frente e para trás causam-nos a maior das dores, pois fazemos uma avaliação do nosso valor, do nosso potencial, com base em modelos sociais falaciosos. O nosso valor é instantâneo e não cumulativo. Pois só no momento presente é que temos o poder para fazer a diferença.
Pense se está a respirar ou se consegue sentir o coração a bater, ou o fluxo do sangue a percorrer artérias e veias. Foco no que este instrumento de existência está a sentir. Desligue por momentos o processamento de conceitos mentais e vá mais fundo a um estado de consciência em vez de viver num estado de emergência. Veja com detalhe cada instante à medida que vai inspirando.
Seja em que tempo for, guerra, pandemia, paz, ócio, neutro, a consciência é a força suprema interior que transcende tudo, pois não se preocupa com os detalhes mesquinhos de uma mente egoica competitiva com as circunstâncias.
Eu sou logo existo.
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