domingo, 29 de março de 2020

Sofrer em inconsciência

Certo dia, nestes tempos de pandemia dei-me conta que tinha ansiedade a ler.
Mais concretamente, tinha receio de começar a ler.
Ler livros. Livros que comprei com o intuito de os ler.
A princípio não me dei conta sequer de que estava com esse sentimento, pois desviava a minha atenção para outra actividade, trocar mensagens com amigos, ouvir música, ver uma série, comer, beber água.
Com o passar dos dias fui definindo estratégias para começar a ler em papel. Trazia os livros para a sala, para que quando me sentasse estivessem logo à mão, mas também à mão estavam o telefone, o comando da televisão, o computador e acabava por ver relatórios sobre a progressão da pandemia pelo mundo, ou ver pequenos excertos de blocos informativos para me ir mantendo informado.
Ganhei o estranho hábito de acompanhar o desenvolvimento dos números de casos de indivíduos infectados pelo novo coronavírus e também pelos que sucumbiam à doença resultante.
Mas acabo por me dar conta, que estou neste momento a viver uma estranha ansiedade em relação à leitura em particular, como que se não quisesse enfrentar as palavras dos autores que tanto estimo, como que se também tivesse de contemplar a realidade que eles puseram nas telas brancas que em tempos tiveram à sua disposição.

Constato ainda que um dos efeitos secundários da instalação deste medo foi um aumento de irritabilidade, em particular no meu ambiente de trabalho. Esta minha incapacidade de controlar o meu ímpeto de opinar sobre o que outros dizem.
Tudo isto me apareceu de forma inconsciente, acho que me distraí com a súbita mudança de paradigma social que se instalou em todo o mundo através de uma espécie de policiamento constante aos hábitos próprios de cada um, à higiene pessoal, à responsabilidade por comportamentos saudáveis, à obrigatoriedade de nos mantermos socialmente distantes, ao conselho de nos fecharmos em casa, à loucura de comprar o máximo possível para sair o mínimo desejável.
De alguma maneira, estas mudanças têm o seu efeito em mim, que num gradual aumento de sofrimento interior se têm manifestado.

A boa notícia, é que o primeiro passo para a começar a resolução deste estranho sofrimento é trazê-lo para a consciência. Escrever é uma forma de testemunho, que me permite dar forma a este sentimento tão particular, num medo tão invisível mas que actua de forma eficaz.

O passo seguinte será buscar tranquilidade.

Algures neste processo será a inclusão de hábitos de leitura simples. Uma página, um novo livro, qualquer coisa que me agarre ao processo dedicado da leitura, tão importante na minha busca por novo conhecimento, uma nova paz.

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